Se você fechar os olhos e pensar no litoral do Ceará, provavelmente virão imagens da Broadway de Canoa Quebrada ou do pôr do sol badalado em Jericoacoara. Mas, para quem busca a alma cearense, o verdadeiro luxo não está no agito, mas no silêncio de uma vila onde a única pressa é a da jangada voltando para o mar.
No Viagem Brasil, fomos atrás do “Lado B” do nosso litoral. Lugares onde o turismo comunitário é a regra, a gastronomia vem direto do barco e o chinelo de dedo é o único acessório obrigatório.
Prepare-se para descobrir as vilas de pescadores que ainda guardam os segredos mais bem guardados do Ceará.
O Charme do Turismo Comunitário: Por que Ir Além?
Viajar para vilas de pescadores autênticas é praticar o turismo consciente. Muitas dessas comunidades fazem parte da Rede Tucum, um movimento que garante que o dinheiro da sua hospedagem e alimentação fique com quem realmente vive na terra. É a garantia de que a história e o ecossistema local sejam preservados contra a especulação predatória.
1. Caetanos de Cima (Amontada)

Localizada entre a famosa Icaraizinho de Amontada e a foz do Rio Aracatiaçu, Caetanos é o ápice da paz. Aqui, o mar encontra dunas móveis que escondem lagoas cristalinas na época das chuvas.
- A Experiência: Hospedar-se em pousadas familiares (como a Casa da Mazé) e participar da colheita de algas com as mulheres da comunidade.
- O Sabor: Não saia de lá sem provar a ecogastronomia local: pratos que misturam frutos do mar com PANCs (plantas alimentícias não convencionais).
2. Ponta Grossa (Icapuí)

No extremo leste do estado, quase divisa com o RN, Ponta Grossa é famosa por suas falésias multicoloridas. É um destino de “fim de estrada” onde o tempo parece ter parado.
- O Diferencial: É a terra da lagosta. No festival gastronômico ou nas barracas pé na areia, a iguaria é servida fresca e com preços que você não encontra em Fortaleza.
- Dica Lado B: Faça a caminhada pelas falésias na maré baixa. A paleta de cores entre o laranja da terra e o verde do mar é indescritível.
3. Barrinha de Baixo (Acaraú)

Se Jeri ficou pequena ou barulhenta demais para você, Barrinha é o seu lugar. A poucos quilômetros do agito, essa vila mantém a simplicidade com um toque de rusticidade elegante.
- O Pôr do Sol: Enquanto todos se acotovelam na Duna do Pôr do Sol em Jeri, em Barrinha você assiste ao espetáculo quase sozinho, com as dunas se fundindo ao mar em um dourado infinito.
4. Prainha do Canto Verde (Beberibe)

Esta vila é um símbolo de resistência. Os moradores lutaram décadas para manter o território longe de grandes resorts. O resultado? Uma praia intocada onde a cultura da pesca artesanal é sagrada.
- Conexão Humana: Conversar com os jangadeiros na areia no fim de tarde é uma aula de história e vida que nenhum guia impresso oferece.
5. Tatajuba (Camocim)

A “Vila que o vento soprou”. Tatajuba já foi soterrada pelas dunas e reconstruída pelos próprios moradores. É um lugar místico, cercado por manguezais e lagoas.
- Aventura: O acesso é via buggy ou 4×4, atravessando balsas artesanais. A sensação de isolamento é o que torna o destino tão especial.
Gastronomia de Raiz: O Que Provar?
Esqueça o menu internacional. Nestas vilas, o luxo é a frescura dos ingredientes.
- Peixe na Telha: Preparado com o peixe do dia (geralmente pargo ou cavala).
- Arroz de Marisco: Feito com mariscos catados na hora no mangue ou nas pedras.
- Tapioca com Coco: A clássica, feita no fogo de lenha, para o café da manhã.
Dicas Práticas para sua Aventura
- Respeite o Ritmo: Nessas vilas, as coisas podem demorar um pouco mais. Relaxe, peça uma água de coco e aproveite a vista.
- Dinheiro em Espécie: Muitas comunidades menores têm sinal de internet instável para máquinas de cartão. Leve sempre um pouco de dinheiro vivo.
- Lixo Zero: Esses ecossistemas são frágeis. O que você levar, traga de volta.
Que tal começar seu roteiro agora?
O Ceará “Lado B” é um convite para desconectar do Wi-Fi e reconectar com o que é essencial. As jangadas estão prontas. E você?
Onde a Estrada Termina, a Experiência Começa
Escolher uma vila de pescadores para as suas próximas férias no Ceará é mais do que uma simples escolha de destino; é uma escolha de ritmo. Enquanto o mundo lá fora corre, nessas comunidades o tempo é ditado pelo movimento das marés e pelo sopro do vento que empurra as jangadas de volta para casa.
No Viagem Brasil, acreditamos que a verdadeira riqueza do nosso país não está nos roteiros óbvios ou nos pontos turísticos saturados, mas na conversa despretensiosa com o pescador, no sabor de um peixe assado na hora e na preservação de culturas que resistem ao tempo.
Visitar o “Lado B” do litoral cearense é um convite para tirar os sapatos, esquecer as notificações do celular e redescobrir um Brasil autêntico, generoso e vibrante. A estrada pode até ser de terra, mas o destino final é sempre uma conexão profunda com o que realmente importa.
Prepare o espírito, respeite a cultura local e permita-se ser guiado pela simplicidade. Afinal, as melhores histórias de viagem não costumam estar nos mapas principais — elas começam justamente onde a sinalização termina.



