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11/01/2011 - 08h27

Visão estratégica para o turismo no Brasil

 
 

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Constantemente as viagens internacionais a turismo e os gastos com cartões de crédito delas decorrentes são apontadas como algumas das principais causas do déficit estrutural da conta de serviços do balanço de pagamentos brasileiro.

De acordo com os dados disponibilizados pelo Banco Central (BC), em 2009, a conta turismo foi deficitária em quase US$ 2 bilhões e, em 2010, entre janeiro e setembro, ela foi responsável por um déficit de quase US$ 3 bilhões, valor equivalente a mais de 10% do déficit do balanço de serviços acumulado nesse período, e a 40% do déficit de toda a conta de viagens internacionais - que contempla, ainda, as viagens para fins educacionais, culturais ou esportivos; negócios; e por motivos de saúde; além dos gastos com cartões de crédito. Contudo, uma leitura pouco atenta desses dados pode levar a conclusões equivocadas, como a de que muitos brasileiros viajam exageradamente para fora do país e/ou que gastam demasiadamente em suas viagens ao exterior.

Prova disso é que, entre 2005 e 2010, a quantidade de turistas brasileiros que realizaram viagens internacionais caiu 21,92%, devendo chegar a 2,86 milhões neste ano, segundo dados do World Travel & Tourism Council (WTTC). Quanto aos gastos com cartões de crédito, os dispêndios dos turistas brasileiros atingirão estimados US$ 7,1 bilhões em 2010, enquanto as receitas mal chegarão a US$ 3,2 bilhões. Em 2009 esses valores foram de US$ 6,6 bilhões e US$ 3,2 bilhões, respectivamente, também segundo o WTTC. Entendemos, portanto, que as reais causas do referido déficit tem raízes em fatores conjunturais e estruturais de desestímulo ao turismo receptivo internacional no Brasil.

No que tange aos fatores conjunturais, destacam-se a prevalência de uma taxa de câmbio extremamente favorável ao turismo no exterior e desfavorável ao interno, bem como a elevada carga tributária. Atualmente, com uma carga tributária de quase 40% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma taxa de câmbio em torno da que tem prevalecido no período mais recente, uma viagem ao exterior pode sair praticamente de graça, com o ganho obtido com as compras de produtos fora do país em relação aos preços domésticos.

Já quanto aos fatores estruturais, pode-se destacar os conhecidos e recorrentes problemas de infraestrutura (aeroportos, rodovias, portos etc.); a violência e a baixa qualidade média da prestação de serviços aos turistas estrangeiros. Infelizmente, não são poucos os episódios de turistas estrangeiros vítimas de crimes diversos em nosso país. Ademais, muitos municípios brasileiros e muitas empresas do setor ainda fazem uso de técnicas de gestão incipientes, quando existentes.

Os efeitos positivos decorrentes das atividades turísticas são diversos e bem aproveitados por muitos países como Estados Unidos, França, Itália e Espanha. Além de gerar divisas, as atividades diretas e indiretas relacionadas ao setor estimulam os investimentos e, por extensão, a geração de empregos e desenvolvimentos de infraestrutura compatível com o crescimento sustentado da economia.

Devido aos grandes eventos que o país sediará em 2014 e 2016, está na hora de mudar o modo de agir
Em 2009 o Brasil recebeu cerca de 4,9 milhões de turistas estrangeiros, sendo que a projeção para 2010 é de que receba cerca de 5,1 milhões. No mesmo ano, a Argentina, por exemplo, recebeu cerca de 4,4 milhões, sendo que para 2010 o WTTC estima 4,6 milhões. Para a Espanha e Itália, dois dos principais destinos turísticos mundiais, são estimados 52,8 milhões e 41,5 milhões de turistas estrangeiros, respectivamente. Assim, enquanto os estrangeiros representam apenas 20% do total de turistas no Brasil, na Argentina esse número chega a 37%; na Itália passa dos 40%; e, na Espanha, supera 50%.

Quanto às receitas com o turismo, o WTTC calcula que, em 2010, foram superiores a US$ 106 bilhões na Itália (9,3% do PIB) e de quase US$ 109 bilhões na Espanha (15,3% do PIB), em comparação com pouco menos de US$ 53 bilhões no Brasil (5,8% do PIB) e de quase US$ 30 bilhões na Argentina (7,2% do PIB).

No que tange aos investimentos governamentais, por seu turno, entre 2000 e 2010 (projeção) o governo brasileiro direcionou cerca de US$ 47 bilhões ao setor, enquanto o espanhol destinou quase US$ 91 bilhões e o italiano, pouco mais de US$ 95 bilhões, muito embora esses dois países tenham um setor de turismo já consolidado e maduro.

Essas evidências revelam algumas preocupações que devem ser consideradas caso se pretenda que o turismo contribua efetivamente para o desenvolvimento social e econômico de nosso país, entre as quais se destacam: a) países que possuem um setor de turismo desenvolvido investem muito mais do que o Brasil - afinal, dada a competição internacional prevalecente, faz-se indispensável a realização de investimentos permanentes e crescentes no setor, bem como um posicionamento de marketing estratégico e atrativo; b) embora o volume de recursos investidos seja importante, tão relevante é o uso eficaz desses recursos.

Por esses motivos e devido aos grandes eventos que sediaremos em 2014 (Copa do Mundo) e em 2016 (Olimpíada), está mais do que na hora de pensarmos estrategicamente o turismo no Brasil, de modo a propiciar o melhor aproveitamento de seus benefícios. Isso significa, pois, admiti-lo como vetor de desenvolvimento econômico e social, condição que requer não apenas o provimento coordenado de recursos públicos e privados para o setor, mas a elaboração de planos com objetivos claros e visão de longo prazo. Enfim, um planejamento que seja capaz de considerar a criação e a manutenção de adequada infraestrutura, formação permanente de mão de obra qualificada e integração entre o poder público, as entidades representantes da sociedade civil e as empresas, de sorte a viabilizar o alcance das metas estipuladas e a constante agregação de valor às atividades relacionadas direta e indiretamente ao turismo.

Autores:

Braulio Oliveira é doutor em Administração pela FEA/USP; professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da FEI e sócio da Contentos - Soluções em Negócios e Treinamento (www.contentos.com.br).

Giuliano Contento de Oliveira é professor doutor do Instituto de Economia da Unicamp. giuliano@eco.unicamp.br

(Artigo publicado na Seção Opinião - Jornal Valor - 06 de janeiro 2011)

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