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27/09/2010 - 13h45

A natureza não tem preço

 
 

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Haroldo Castro
O Lago Umm El Maa, no Deserto Ubari, na Líbia. Além da água, o oásis oferece paz e serenidade ao viajante
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Haroldo Castro
Girafas no Parque Nacional Tsavo Oeste, no Quênia, ajoelham-se para beber água.
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Haroldo Castro
Aararas-vermelhas saem do Buraco das Araras em Jardim, em Mato Grosso do Sul. Tanto artistas quanto cientistas buscam inspiração na interação das espécies com o ambiente natural
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Haroldo Castro
Bosque de baobás na costa oeste de Madagascar, país que abriga o maior número de espécies dessa árvore, considerada sagrada por diferentes tribos africanas.
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Haroldo Castro
Duplo arco-íris nos Saltos Mbigua e Bernabé Mendez, no lado argentino das Cataratas do Iguaçu. Preservar paisagens naturais como essas é parte da missão humana, segundo líderes espirituais, como o Dalai-Lama.
Duplo arco-íris nos Saltos Mbigua e Bernabé Mendez, no lado argentino das Cataratas do Iguaçu. Preservar paisagens naturais como essas é parte da missão humana, segundo líderes espirituais, como o Dalai-Lama.

A caminhonete sobe a duna até onde o motor aguenta, encontra uma área plana e para. “Use as pernas para chegar ao topo. Não desista, a recompensa é valiosa”, diz o líbio Ali Mahfud, avisando que não participará do último esforço. Escolho subir a duna amarela, quase dourada, em zigue-zague. E descalço. Mais fácil vencer a montanha sem sapatos. A cada passo, a ascensão se torna mais pesada e os pés se enterram na areia fofa. Sigo em frente, impulsionado por minha teimosia. Meia hora depois, chego ao ápice. Meus olhos deixam de observar o chão, buscam o horizonte e encontram a surpresa que Ali antecipara. Descubro um lago de água cristalina, rodeado de palmeiras – o ícone perfeito de um oásis. Como imaginar que, em um mar infinito de areia, possa brotar tanta vida? Mais comovido que cansado, sento no cume da duna para contemplar a paisagem. É uma natureza pura, de cores límpidas: o azul-claro do céu, o azul-escuro do lago, o verde das tamareiras e o dourado pálido da areia. A beleza, simples e serena, me toca. Meu corpo reage com um profundo suspiro. Sinto um misto da felicidade de adolescente apaixonado e da tranquilidade de um sábio ancião. Sei que a cena ficará t atuada durante décadas em minha mente e em meu espírito. É um daqueles instantes em que afirmamos, sem timidez, que vale a pena estar vivo.

O contato direto com a natureza pode gerar emoções profundas no ser humano – principalmente no ser urbano que trocou, nas últimas décadas, seu cotidiano do campo pelo da cidade. Pouco mais da metade (50,5%) dos 6,7 bilhões de habitantes do planeta vive hoje em cidades e não convive mais com o ciclo rural de plantio e colheita, tão básico para nossos antepassados. “Ir ao supermercado e comprar um alimento congelado facilitou nossa vida, mas também rompeu o elo de coexistência que existia entre nós e a Terra”, afirma Catarina Menucci, paisagista e criadora do ecomercado Avis Rara, de Campinas, em São Paulo. “Vivemos cada vez mais longe da natureza.” Esse distanciamento é uma equação pessoal. Cada indivíduo tem uma necessidade particular de estar mais tempo – ou menos – em um ambiente natural. s Mas a baixa qualidade do ar, a poluição sonora e o caos visual de uma cidade não podem ser comparados com a experiência de caminhar por uma floresta tropical, de nadar em um rio cristalino ou de conhecer uma praia inabitada. Ou descobrir um oásis no Saara.

Um dos principais valores não monetários da natureza é a sensação de prazer e conforto provocada por sua harmonia estética. “Quando estou dentro de uma floresta, vejo a beleza de tudo e me conecto com o ciclo interminável da vida. Posso entender melhor por que as espécies evoluem e se adaptam”, diz Elda Brizuela, conservacionista e cineasta da Costa Rica. “Destruir esse espaço é como arrasar algo que é parte de minha alma.” A relação entre natureza e alma parece ser óbvia para quem busca inspiração do mundo natural em seu trabalho. “A natureza me traz paz interior e me ajuda a estar mais próximo de mim mesmo”, diz o artista plástico e webdesigner João Makray. “É a melhor forma para esquecer os problemas banais do cotidiano e alimentar minha criatividade.” Makray passou semanas visitando dezenas de cachoeiras, rios e matas para desenhar as gravuras do livro Orixás, no qual as divindades da tradição afro-brasileira são mostradas como forças naturais, e não apenas antropomórficas.

Algumas pessoas desenvolvem suas próprias histórias de amor com o mundo natural. O valor estético e sensorial da natureza é sempre a base para essa relação platônica e contemplativa que cada indivíduo forja. “Na floresta, percebo os aromas e me sinto como um beija-flor”, afirma Luis Fernando Molina, poeta e ambientalista colombiano. “No cume da montanha, vislumbro a paisagem e tenho vontade de voar. No deserto, por ser infinito, me comunico com o divino. Mas, quando estou na cidade, sou apenas um número a mais”, afirma. A empresária Scholastica Ponera, dona da empresa Pongo Safaris, de Dar Es Salaam, na Tanzânia, diz que entrar em um parque nacional lhe dá tranquilidade e harmonia. “Gosto de me sentar no chão, sozinha, procurar uma semente do tamanho de um botão de camisa e meditar como ela se transformará em uma majestosa árvore.”

Nem todas as pessoas são receptivas como Ponera e Molina. Uma boa parte dos urbanos tem mais medo da natureza que admiração por ela. A bióloga Rita Mendonça, diretora do Instituto Romã, tem uma solução. “Organizamos vivências e caminhadas para desenvolver a sensibilidade dos interessados em contatar os aspectos intangíveis da natureza”, diz. “As pessoas saem transformadas ao interagir, de forma intuitiva e sensível, com a natureza.”

Além de musa inspiradora e alívio para os sentidos humanos, a natureza também serve como ponte entre o mundo concreto e o divino. Considerar a natureza como “algo maior” é uma constante para aqueles que têm uma visão que vai além da esfera material e utilitária. “Nada como estar entre sequoias-gigantes, com mais de 100 metros de altura e séculos de idade, para romper com os limites físicos e considerar que existe uma ‘força de vida’ bem maior que eu”, diz o americano Keith Wheeler, um dos diretores da União Internacional para a Conservação da Natureza. “A natureza não apenas me oferece um espaço de reflexão sobre ética e espiritualidade, ela também traz inspiração para que eu possa melhor conduzir minha vida.”

As grandes religiões têm conceitos que podem ser interpretados como de proteção da natureza. Crenças que outrora não colocavam a conservação em sua agenda de prioridades passaram a ter um discurso mais verde, quando confrontadas com a atual crise ambiental. Nas últimas décadas, conservacionistas tentaram estabelecer parcerias que pudessem transformar líderes espirituais em potenciais educadores. O Instituto Ambiental de Comunidades de Fé da África Austral é uma dessas iniciativas, congregando pessoas de diferentes linhas. “Fazemos parte do mundo natural que nos rodeia. Apesar da alienação criada pelas cidades, não podemos nos separar do resto da Criação. Nós nos renovamos espiritualmente ao vivenciar o ambiente natural, particularmente quando estamos em um lugar selvagem”, afirma seu líder, o bispo sul-africano Geoff Davis. “As experiências profundas com a natureza servem como curas psicológicas.”

O jainismo – religião originada na Índia há 25 séculos – considera o ainsa, a não violência, como seu princípio essencial. “Praticamos a não violência com a totalidade das espécies vivas, não apenas com humanos. Temos um profundo respeito por toda a natureza: não matamos animais e só comemos as partes das plantas que não as sacrifiquem”, diz Hitesh Mehta, arquiteto e paisagista queniano. “Nossa filosofia demanda um estilo de vida de baixo impacto. Há séculos vivemos o que hoje é chamado de sustentabilidade ambiental. Não existe maior virtude espiritual que a da não violência absoluta.” Mehta afirma que grandes pensadores, como Mahatma Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela, foram profundamente influenciados pelo jainismo.

As tradições afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé, consideram as manifestações da natureza como “energias sagradas”. São os orixás. A biodiversidade das matas é a representação física de Oxóssi, as ervas medicinais simbolizam Oçânhim e os mananciais de águas expressam Nanã. “A natureza é um livro sagrado, e precisamos aprender a decifrar o que ela pode nos revelar”, diz o babalorixá Carlos Buby, do Templo Guaracy do Brasil. “A compreensão biológica das diferentes formas de vida do planeta não é suficiente para assegurar sua proteção. É necessário acrescentar os valores imateriais para que a natureza seja reconhecida como sagrada e, assim, devidamente protegida.”

O Dalai-Lama, chefe espiritual do budismo tibetano, desmistifica a conservação ambiental e a coloca como um dever prático. “Cuidar de nosso planeta não é um ato santo ou sagrado. Não podemos viver em nenhum outro, apenas neste”, afirma o monge tibetano. “É como cuidar de nossa casa.” Em nossa cultura mercantilista, os economistas da conservação já registram os bilhões de reais que os serviços ambientais prestam aos humanos. Mas os valores estéticos e espirituais estão na esfera do intangível. Não podemos colocar uma etiqueta de preço no sagrado.

Por Haroldo Castro (texto e fotos) Publicado na Revista Época

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