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22/06/2008 - 13h01

Mastodonte - O resgate do elefante brasileiro, ciência e mergulho em Bonito MS

 
 

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O achado

 

A data era 17 de agosto de 2002 e o trabalho na Nascente do Formoso seguia como o planejado. Ninguém da equipe poderia imaginar a surpresa que se apresentaria um pouco mais tarde naquele mesmo dia. Até então, só havia motivos para comemoração uma vez que o cronograma previsto ia muito bem e a água estava bastante limpa, o que facilitava o trabalho. Os "rebreathers" (RB 80), equipamentos que estavam sendo usados pela primeira vez naquela caverna, apresentavam desempenho excelente. O trabalho proposto ao IBAMA/CECAV na solicitação das permissões de mergulho, era a realização de uma topografia mais detalhada da Nascente do Formoso e outras cavernas na região de Bonito no Mato Grosso do Sul.O Formoso é um sistema complexo, no qual já haviam sido feitos trabalhos anteriores, mas nenhum deles com o grau de detalhamento a que se propunha esta equipe. O time coordenado por Marcus Werneck era integrado por Luis Toledo, Leandro Dybal Bertoni, Danilo Allegrini e Sergio Costa. Contavam com apoio de Ismael Escote, Jayme Navarro, Edmundo Costa Junior e Valfredo Pires.

O Sistema Formoso é uma ressurgência com duas nascentes conhecidas como "Formoso" e "Formosinho". A água que por milhões de anos escavou estes túneis na rocha, encontrou duas saídas que estão a menos de 20 m de distância uma da outra. A profundidade chega aos 80 metros e a penetração horizontal pode chegar a 600 metros.Mergulhadores têm visitado este lugar desde o início dos anos 90 sem nunca ter se dado conta do tesouro que ali existia e que ficou esperando por quase 10 mil anos para ser encontrado. A descoberta foi feita em um dos mergulhos de checagem dos cabos e preparação para os mergulhos profundos.

Enquanto o trabalho de topografia seguia no "Formoso", o time de apoio entrou pelo "Formosinho". Logo após ter passado pela restrição da entrada, em torno dos 22 m de profundidade, alguma coisa chamou a atenção do mergulhador Ismael Escote. Era um objeto grande que parecia mesmo um pedaço de rocha, a não ser por um detalhe quase imperceptível! Algumas partes sem incrustação de lama revelavam o que parecia ser esmalte, e portanto, dentes de algum animal. O aspecto realmente impressionava e não era nada parecido com o que ele já havia visto anteriormente. Era evidente que alguma coisa muito grande, algum dia possuiu aqueles dentes. Ismael Escote integra a equipe do Museu Nacional em trabalhos de prospecção paleontológica desde o ano 2000, tendo atuado em três expedições. Por este motivo, conseguiu distinguir como sendo um fóssil, o que para muitos que ali estiveram anteriormente, inclusive ele mesmo, parecia apenas rocha.

Com a nova informação, outro mergulho foi organizado com o intuito de fotografar esta peça. Desta vez, Danilo Alegrini dava apoio para Ismael que com o auxilio de uma trena e uma câmara, conseguiu registrar em escala, imagens que foram anexadas ao relatório da expedição e posteriormente enviadas ao Museu Nacional para identificação. Além da peça com enormes dentes, muitos outros ossos foram fotografados. O resultado foi aguardado com bastante ansiedade por alguns dias até que finalmente chegou o parecer do Museu Nacional. O Prof. Leandro Salles, responsável pelo parecer, é Doutor em Paleontologia e coordena vários projetos de pesquisa na UFRJ e Museu Nacional. Atualmente, um dos projetos em andamento trata da "megafauna" extinta desta região e este achado, um dos exemplares mais exuberantes desta fauna.Os dentes e demais ossos realmente pertenceram a um grande animal que habitou a região há cerca de dez mil anos atrás. O Mastodonte ( Haplomastodon sp. ), foi a única espécie de elefante brasileiro e hoje são raríssimas as evidências destes animais no continente americano.

 

 

O resgate

 

Exatamente um ano. Este foi o tempo necessário para que se organizasse uma nova expedição à Bonito com o objetivo de coletar as evidências deste achado paleontológico tão importante. A data era a mesma, 17 de agosto, mas o ano era 2003. O time desta vez, composto de mais de 20 pessoas, contava com especialistas das mais diversas áreas. Biólogos , geólogos, arqueólogos, cinegrafistas, mergulhadores e pesquisadores em geral, todos trabalhando com uma única finalidade, fazer o resgate deste material da forma mais técnica e organizada possível. A prospecção paleontológica em cavernas inundadas é uma tarefa extremamente complicada do ponto de vista técnico científico. Existe a necessidade de que todo o material retirado, possa ser localizado numa espécie de mapa com quadrantes que os paleontólogos denominam de "grid". A disposição dos ossos, muitas vezes fornece informações importantes no complicado quebra cabeça da história. Os fatos conhecidos são poucos e a junção de vários fragmentos de informações, fazem um mosaico onde cada detalhe é importante para ter-se uma visão do conjunto.

Quem coordenava o time de mergulhadores era Antonio Libertino, mais conhecido como "Pardal". Na equipe estavam Robson Fonseca, Miguel Lopes, Jayme Navarro e Ismael Escote. A coordenação geral dos trabalhos estava a cargo do Prof. Leandro Salles que tinha fora da água, uma equipe de apoio ansiosa e competente esperando pelo resultado das coletas.

O maior problema era a elaboração de um método que tornasse possível, após a coleta e identificação das peças, a localização e visualização do material na caverna. Devido ao grande número de rochas abatidas e um relevo completamente irregular, a idéia de um "grid", como queriam os pesquisadores, foi praticamente descartada pela equipe de mergulho. Isto implicaria na presença de linhas para os quadrantes o que aumentaria muito o risco, pois a maior parte do trabalho era feita com visibilidade restrita. Basta imaginar alguém retirando uma peça de osso do meio do sedimento e todo este sedimento sendo levado pela corrente para outras partes da caverna. Agora multiplique pelo número de mergulhadores na água e terá um cenário nada confortável a quase 100 metros de distância da saída. O método proposto e que obteve consenso entre a maioria, foi o de sinalizar os ossos com marcadores numerados. Os ossos eram transportados em sacos plásticos que continham um número equivalente a bandeira de sinalização que seria deixada no lugar. Desta forma o pessoal de superfície catalogava o osso retirado com um número, que posteriormente seria localizado pela bandeira fixada na caverna. Posteriormente seria realizado o trabalho de mapeamento destas "bandeiras" e sua localização em relação ao cabo guia da caverna. Portanto, será possível saber exatamente onde cada peça retirada se encontrava e sua disposição em relação às outras.

Na medida em que todo este material saía da água trazido pelos mergulhadores, ia sendo selecionado e catalogado conforme o critério técnico científico adotado pela equipe de superfície. Algumas peças necessitaram ser engessadas para serem transportadas com mais segurança, pois se tratava de material valioso e relativamente frágil.

 

 

O estudo

 

Todo o material coletado foi levado ao Museu Nacional que fica no Rio de Janeiro. O Museu Nacional é uma das instituições públicas mais antigas do Brasil e abriga o maior acervo de história natural do País. Os trabalhos de identificação e datação são minuciosos, demandam muito tempo e dinheiro, alguns testes são executados em laboratórios fora do país. Determinadas peças, pela sua importância, receberam moldes e poderão ser copiadas. Suas réplicas serão expostas ao público que visita o museu ou em exposições itinerantes.

O destino de um fóssil coletado é sempre controverso. Alguns acham até que nem deveriam ser retirados da caverna, outros acham que deveriam ficar na cidade onde foi encontrado e assim, várias opiniões se dividem. O que é preciso entender é que: dada sua importância histórica, um fóssil não pode ser propriedade de uma comunidade, cidade ou estado. Este material conta a história da vida na Terra, antes mesmo da existência do homem de sua sociedade ou de sua política. Um museu como este, é uma instituição totalmente idônea e especializada na guarda e manutenção deste patrimônio que deve ser preservado por várias gerações. Mesmo assim, o trabalho prevê o retorno de algum material à sua origem desde que haja condições de guarda deste acervo. Quanto a permanecer na caverna, de nada serviria já que dificilmente seria reconhecido, ficando restrito a apreciação de uns poucos, sem que qualquer conhecimento científico a respeito fosse produzido. Estas são questões polêmicas a serem discutidas e avaliadas com muito bom senso, para que tanto a comunidade científica quanto a população leiga sejam atendidas.

O mergulho e a ciência por vezes se encontram, para trazer à luz do conhecimento coisas desta grandeza, que de outra forma, ficariam ocultas do mundo. Existem muitas referências disso na arqueologia, onde não raro, o trabalho conjunto entre mergulhadores e pesquisadores rendeu descobertas fascinantes. Poder aprender com isto, fazer parte deste processo é um privilégio de poucos. Afinal, quantas vezes na vida têm-se a certeza de estar escrevendo ao menos uma linha na história da humanidade? 

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